domingo, 6 de junho de 2010

Tentação

Reescrita do conto "Tentação", da Clarice Lispector. Viajei bastante, mas gostei.


Todos os dias a mesma coisa: acordava cedo com os afagos minha dona e, em uma hora fixa, saíamos para um passeio matinal. Certo dia, porém, esta rotina fora abalada: a começar pelo horário em que saímos. O sol estava quase a pino, o calor que irradiava do chão era intenso, mas não abriria mão do meu passeio. Creio que a minha dona compreendera esta minha escolha ao ver minha inquietação defronte a porta de entrada. Então, calmamente pegou minha coleira. Sabia fazer com que a humana deduzisse os meus desejos, sou um esperto basset. Um basset ruivo.
Fomo-nos seguindo, passos brandos pelas ruas ensolaradas. Nunca havia passado por aquelas. Meu corpo não estava sendo protegido pelo guarda-sol da minha acompanhante, logo minha língua estaria tremendo freneticamente para fora da minha boca. Algo irrelevante. No mesmo instante em que proferi tal pensamento, viramos uma esquina.
Tamanha fora minha surpresa ao vê-la.
Não conseguia desviar o olhar d’aquela criança. Ela estava sentada em uma escada, seus braços rodeavam suas pernas em um abraço terno. Só depois percebi que uma bolsa preta e desbotada em seu domínio. Todavia, tudo isso era irrelevante. Apenas uma coisa prendia a minha atenção: o topo da sua cabeça flamejava sob o sol.
Percebi o momento em que seu olhar se desviou para mim. Sua reação foi de surpresa, tão quanto, ou mais intensa que a minha.
Trotando, aproximei-me da garota ruiva. Esta levantou o rosto, ainda me fitava com a mesma expressão. Parei diante dela. Então, fitei seus olhos. Tão... Pasmos?
Minha dona puxou suavemente a coleira, chamando-me à realidade. Não cedi, continuei fixo, imóvel.
Como tinha previsto anteriormente, minha língua, inevitavelmente postara-se para fora, fazendo com que o meu corpo tremesse.
Aqueles olhos. Nunca os tinha visto. Mas por que pareciam tão conhecidos a mim? Entre toda a imensidão deste lugar, eu a encontrei. Uma garota ruiva, como nunca tinha visto em lugar algum. Seu olhar era recíproco, parecia adivinhar que eu a tinha identificado. Identificado como aquela que estaria destinada a mim, a me ter.
Seus orbes negros estreitaram em compreensão. Voltaram ao normal apenas para dizer-me que me queria. “Eu também”. Mas o que fazer? Eu tenho minha vida aprisionada, um animal. E ela, ela com certeza tem uma família, uma infância. Cri que a pequena não podia compreender o significado do comprometimento, pertencimento. Sua idade não lhe devia permitir.
Vi-me totalmente enganado quando seus olhos me fitaram mais intensamente, mais pedintes.
Senti novamente uma suave pressão em meu pescoço. Provavelmente minha dona estaria impaciente, tentando me trazer ao mundo real.
Apenas mais uma vez eu olhei para a menina dos cabelos vibrantes. Possuíamos a mesma vontade, a mesma necessidade: o outro. Possuíamos a mesma natureza: o flamejar.
Desviei-me daqueles olhos infantis, sérios e intensos. Dei as costas para a garota e voltei a trotar. Ainda estava sonâmbulo. Minhas patas se movimentavam por vontade própria. Uma única coisa tomava conta do meu ser: a imagem da garota e dos seus olhos adornados pelas suas mechas ruivas.
“Não podemos.”
Não olhei para trás.

Bittersweet.

Bittersweet, Apocalyptica.

"Break this bittersweet spell on me
Lost in the arms of destiny
Bittersweet

I want you
I'm only wanting you
And I need you
I'm needing you."

Novo Inferno.

Como o de costume, todos aqueles que fizeram pré-coluni, ou qualquer coisa do gênero, diziam que estavam cansados com a vida de estudo e que quando estivessem dentro do Coluni, tudo seria melhor.
MENTIRA. Ah, que mentira deslavada. Tudo bem que eu sabia que não era bem assim. Mas esse " bem assim" está me saindo mais que bem.
Estou virando escrava dos livros. Do livro de física, na verdade. Nós mantemos uma relação estreita entre amor e desafios. Ele me enche o saco, e eu jogo todo o desafio proposto na cara dele. Realmente. Ele não irá me render tão facilmente.
Como o de costume, eu acordo todos os dias às seis da manhã. Chego no RU (Restaurante Universitário) às sete e meia, no máximo, para tomar café. Logo em seguida vou para a Biblioteca. Estudo um pouco (só se for) e vou novamente para o RU almoçar. Depois do almoço, o Coluni me espera. Uma tarde "feliz" de aulas se estende. O intervalo tem se mostrado um bom amigo: nele eu e a Roberta saímos do colégio para tomar sol. Depois das aulas, o RU está de portas abertas pra mim, novamente. Pelo período da noite, ou eu vou para casa, ou eu fico na Biblioteca por mais algum tempinho, fazendo exercícios de física. Será que estudar se resume a atividades de física?
Semana de prova é, literalmente, uma loucura.
A semana, propriamente dita, não. No caso, eu é que fico (mais) insana.
Normalmente, eu converso e rio sentada sozinha na mesa do lotado RU. Em semana de prova, as coisas se agravam: Como as provas são pela manhã, eu saio de casa já correndo para o Coluni. Depois de lá, um dia inteiro de estudo me aguarda. Normalmente, um pedaço da madrugada também acolhe-me na companhia dos livros. Acordo no outro (ou mesmo) dia, e a rotina se repete. Sábado, último dia de prova, já não sei mais quem sou: Slash, Robson Crusoé, Madonna, Yngwie Malmsteen, Kiko Loureiro, Tchaikovsky?! Não me pergunte. Estarei fora de mim. Estudar não faz bem para a saúde, dica.

É, acabei de postar uma coisa inútil.