Reescrita do conto "Tentação", da Clarice Lispector. Viajei bastante, mas gostei.
Todos os dias a mesma coisa: acordava cedo com os afagos minha dona e, em uma hora fixa, saíamos para um passeio matinal. Certo dia, porém, esta rotina fora abalada: a começar pelo horário em que saímos. O sol estava quase a pino, o calor que irradiava do chão era intenso, mas não abriria mão do meu passeio. Creio que a minha dona compreendera esta minha escolha ao ver minha inquietação defronte a porta de entrada. Então, calmamente pegou minha coleira. Sabia fazer com que a humana deduzisse os meus desejos, sou um esperto basset. Um basset ruivo.
Fomo-nos seguindo, passos brandos pelas ruas ensolaradas. Nunca havia passado por aquelas. Meu corpo não estava sendo protegido pelo guarda-sol da minha acompanhante, logo minha língua estaria tremendo freneticamente para fora da minha boca. Algo irrelevante. No mesmo instante em que proferi tal pensamento, viramos uma esquina.
Tamanha fora minha surpresa ao vê-la.
Não conseguia desviar o olhar d’aquela criança. Ela estava sentada em uma escada, seus braços rodeavam suas pernas em um abraço terno. Só depois percebi que uma bolsa preta e desbotada em seu domínio. Todavia, tudo isso era irrelevante. Apenas uma coisa prendia a minha atenção: o topo da sua cabeça flamejava sob o sol.
Percebi o momento em que seu olhar se desviou para mim. Sua reação foi de surpresa, tão quanto, ou mais intensa que a minha.
Trotando, aproximei-me da garota ruiva. Esta levantou o rosto, ainda me fitava com a mesma expressão. Parei diante dela. Então, fitei seus olhos. Tão... Pasmos?
Minha dona puxou suavemente a coleira, chamando-me à realidade. Não cedi, continuei fixo, imóvel.
Como tinha previsto anteriormente, minha língua, inevitavelmente postara-se para fora, fazendo com que o meu corpo tremesse.
Aqueles olhos. Nunca os tinha visto. Mas por que pareciam tão conhecidos a mim? Entre toda a imensidão deste lugar, eu a encontrei. Uma garota ruiva, como nunca tinha visto em lugar algum. Seu olhar era recíproco, parecia adivinhar que eu a tinha identificado. Identificado como aquela que estaria destinada a mim, a me ter.
Seus orbes negros estreitaram em compreensão. Voltaram ao normal apenas para dizer-me que me queria. “Eu também”. Mas o que fazer? Eu tenho minha vida aprisionada, um animal. E ela, ela com certeza tem uma família, uma infância. Cri que a pequena não podia compreender o significado do comprometimento, pertencimento. Sua idade não lhe devia permitir.
Vi-me totalmente enganado quando seus olhos me fitaram mais intensamente, mais pedintes.
Senti novamente uma suave pressão em meu pescoço. Provavelmente minha dona estaria impaciente, tentando me trazer ao mundo real.
Apenas mais uma vez eu olhei para a menina dos cabelos vibrantes. Possuíamos a mesma vontade, a mesma necessidade: o outro. Possuíamos a mesma natureza: o flamejar.
Desviei-me daqueles olhos infantis, sérios e intensos. Dei as costas para a garota e voltei a trotar. Ainda estava sonâmbulo. Minhas patas se movimentavam por vontade própria. Uma única coisa tomava conta do meu ser: a imagem da garota e dos seus olhos adornados pelas suas mechas ruivas.
“Não podemos.”
Não olhei para trás.
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