Sentado em sua poltrona Pedro
Miranda refletia. Melhor dizendo, se perdia.
Cada profundo suspiro fazia com que voltasse a sentir
seu corpo físico ali, estático.
Esquecendo-se da respiração, voltava à viagem.
Devaneava, de olhos abertos, com o momento em que seus lábios tocavam os da
sua amada.
Ah... Como eram doces os lábios!
Cada toque era como uma tragada em um vinho doce,
forte. A embriaguez lhe vinha de tal forma a libertar seu ser de qualquer
impedimento.
Seus braços envolviam
Os dedos
tamborilavam,
As pernas se
cruzavam,
Os olhos se
fechavam,
As bocas se
comprimiam, deleitosas.
Suspirava...
E novamente
via-se puxado ao corpo. Mas por pouco tempo, pois os lábios imaginários
procuravam avidamente pelos seus.
E assim, no
mundo das ideias, passava todos os dias Pedro Miranda.
Esquecendo-se
da razão e da realidade.
Não, não,
não. A razão e a realidade, para Pedro Miranda, estavam naqueles inexistentes lábios.
Sentir o corpo estático na poltrona era apenas um vil pesadelo – passageiro –
que lhe tirava, por alguns instantes, da sua verdadeira morada.
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