segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Realidade

  Sentado em sua poltrona Pedro Miranda refletia. Melhor dizendo, se perdia.
  Cada profundo suspiro fazia com que voltasse a sentir seu corpo físico ali, estático.
  Esquecendo-se da respiração, voltava à viagem. Devaneava, de olhos abertos, com o momento em que seus lábios tocavam os da sua amada.

  Ah... Como eram doces os lábios!

  Cada toque era como uma tragada em um vinho doce, forte. A embriaguez lhe vinha de tal forma a libertar seu ser de qualquer impedimento.

      Seus braços envolviam
      Os dedos tamborilavam,
      As pernas se cruzavam,
      Os olhos se fechavam, 
      As bocas se comprimiam, deleitosas. 
      
      Suspirava...

  E novamente via-se puxado ao corpo. Mas por pouco tempo, pois os lábios imaginários procuravam avidamente pelos seus.

  E assim, no mundo das ideias, passava todos os dias Pedro Miranda.

  Esquecendo-se da razão e da realidade.

  Não, não, não. A razão e a realidade, para Pedro Miranda, estavam naqueles inexistentes lábios. Sentir o corpo estático na poltrona era apenas um vil pesadelo – passageiro – que lhe tirava, por alguns instantes, da sua verdadeira morada.  

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